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Mortalidade materna: uma tragédia evitável que exige ação coletiva

São Paulo avança na construção de um plano estratégico para reduzir óbitos maternos, com apoio da SOGESP

Em 5 de maio de 2026, o Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, sediou um encontro que reuniu especialistas, gestores públicos e instituições acadêmicas em torno de um objetivo comum: construir um pacto concreto para reduzir os índices de mortalidade materna no estado. O fórum “São Paulo pela Redução da Mortalidade Materna: Políticas Públicas para seu Enfrentamento”, organizado pela Área da Saúde da Mulher da Secretaria de Estado da Saúde, não foi um evento de diagnóstico, visto que já se sabe o tamanho do problema. Foi um evento de compromisso.

A SOGESP marcou presença com sua presidente, Dra. Maria Rita de Souza Mesquita, sua diretora científica, Dra. Rosiane Mattar, e a segunda vice-presidente da entidade, Dra. Vera Therezinha Medeiros Borges, ao lado de representantes das Faculdades de Medicina da Unifesp, Unicamp, Unesp e USP São Paulo, USP Ribeirão Preto e PUC Sorocaba. Para a Dra. Maria Rita, a presença da entidade nesse espaço não é opcional, é parte do papel que a SOGESP escolheu exercer.

“A mortalidade materna é uma tragédia evitável, e é por isso que a SOGESP entende que seu lugar é aqui, ao lado do poder público e das instituições acadêmicas, construindo soluções concretas. Cada óbito materno representa uma falha do sistema que precisamos corrigir juntos. Nossa sociedade tem o compromisso técnico e ético de contribuir ativamente para que São Paulo avance de forma significativa nesse enfrentamento.”

A arquitetura de um plano

Por trás do convite à SOGESP para participar do fórum está uma figura que transita com desenvoltura entre a medicina e a gestão pública. O Dr. Edmund Chada Baracat, coordenador da Área Técnica da Saúde da Mulher da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e ex-presidente da SOGESP (gestão 1994–1997), coordena os grupos técnicos científicos que dão substância às ações da secretaria.

A estrutura que o Dr. Baracat montou é composta por dois grupos. O primeiro, chamado Ciclo Gravídico-Puerperal, dedicado à gestação, ao parto e ao pós-parto, é coordenado pela Dra. Rossana Pulcineli e reúne especialistas de referência nacional, entre eles o Dr. Geraldo Duarte, a Dra. Fernanda Surita, a Dra. Vera Borges e a Dra. Rosiane Mattar, com colaboração da SOGESP e da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo). O segundo grupo, Ciclos da Vida, abrange as diferentes fases da vida da mulher, da adolescência à velhice, sob coordenação da Dra. Isabel Sorpreso, também com participação da SOGESP.

“Procurei agregar as diferentes áreas de conhecimento, com um grupo técnico científico altamente capacitado, que faz ligação com as demais universidades do Estado de São Paulo e cuida da mulher nas diferentes fases da vida. Temos, nesses dois grupos, representantes dos maiores hospitais do estado”, explica o Dr. Baracat.

O fórum de maio teve dois momentos distintos. Pela manhã, apresentações científicas sobre o cenário da mortalidade materna em São Paulo. À tarde, planejamento estratégico, conduzido pelo grupo de pesquisadores do projeto REMAP – Reestruturação da Rede de Atenção Materna e Perinatal no Estado de São Paulo para Redução da Razão de Mortalidade Materna, Fetal e Neonatal, com destaque para as participações da Dra. Rafaela Alkmin e da Dra. Rossana Pulcineli, professoras da Faculdade de Medicina da USP e coordenadoras do projeto. Ao final do dia, os participantes prepararam uma lista de ações prioritárias. O passo seguinte será a implantação dessas ações.

“Muitas das causas de mortalidade materna são evitáveis, como pré-eclâmpsia, hemorragia e infecção. É urgente a implantação de ações de prevenção”, resume o Dr. Baracat.

Gargalos que custam vidas

Para o Dr. Baracat, o enfrentamento da mortalidade materna exige atacar simultaneamente várias frentes. A detecção precoce de sinais de risco na atenção primária – as unidades básicas de saúde, primeiro contato da gestante com o sistema – é uma delas, e talvez a mais estratégica, justamente por ser também a mais frágil.

“O diagnóstico precoce é o primeiro passo. A gestante que está ganhando muito peso ou com a pressão arterial subindo já pode ser identificada na atenção primária. Mas a atenção primária é dos municípios, não da alçada da secretaria estadual. Por isso, essa ligação com a SOGESP é ainda mais importante”, destaca.

A observação aponta para um dos nós mais difíceis de desatar no sistema de saúde brasileiro: a fragmentação entre os níveis de atenção e entre as esferas federal, estadual e municipal de gestão. Uma gestante que frequenta uma unidade básica de saúde e apresenta sinal de alerta para pré-eclâmpsia – a elevação da pressão arterial na gravidez – depende que o profissional que a atende reconheça o risco, registre e encaminhe. E que, do outro lado, haja uma referência especializada disponível e acessível. Quando qualquer um desses elos falha, o resultado pode ser fatal.

“É preciso que haja um sistema eficiente de referência e contrarreferência, facilidade de acesso, para uma assistência de gestação de alto risco em centros especializados. Se a gestante está na atenção básica e precisa de atenção especializada, ela precisa de atendimento atento e eficaz. Se não, corre o risco de evoluir para um quadro mais grave, como uma eclâmpsia.”

A desigualdade social aparece como pano de fundo de tudo isso. O Dr. Baracat é direto ao reconhecer que as mortes maternas não se distribuem de forma uniforme: afetam de forma desproporcional mulheres negras, de menor renda e com menor acesso a serviços de qualidade.

“Tem que ter investimento, tem que favorecer o acesso, tem que diminuir as desigualdades. Temos que levar informação à nossa população, mas também capacitar os profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, orientar agentes comunitários e ter investimento, ter oportunidades.”

Da pesquisa à política pública: a Obstetrícia no centro do debate

Integrante do Grupo Técnico do Ciclo Gravídico-Puerperal da Secretaria de Estado da Saúde e segunda vice-presidente da SOGESP, a Dra. Vera Therezinha Medeiros Borges representa, nessa equação, a ligação entre o rigor científico e a aplicação prática das estratégias de redução da mortalidade materna. Professora de Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), acompanha de perto tanto a produção de evidências sobre o tema quanto os desafios de transpô-las para a realidade dos serviços de saúde em todo o estado.

“A mortalidade materna é um indicador que nos preocupa enquanto sociedade, porque sabemos que 90% dessas mortes são evitáveis. O Brasil está muito aquém das metas internacionais, e São Paulo, apesar de ter indicadores melhores que a média nacional, carrega desigualdades profundas dentro do próprio estado. Precisamos de ações que cheguem aonde as mulheres estão, especialmente as mais vulneráveis”, explica a Dra. Vera, destacando que o enfrentamento eficaz da mortalidade materna passa, necessariamente, pela capacitação contínua dos profissionais que atuam na linha de frente do cuidado obstétrico.

A SOGESP tem papel central nessa missão, por sua capilaridade em todo o estado de São Paulo. “Um dos maiores desafios é garantir que o conhecimento chegue a todos os cantos do estado, não apenas aos grandes centros. É para isso que a SOGESP existe, para ser esse elo entre a excelência científica e o médico que atende no interior, muitas vezes sozinho, com recursos limitados, mas com enorme responsabilidade. Capacitar esse profissional é salvar vidas”, aponta a vice-presidente.

O papel insubstituível da sociedade médica

Para o Dr. Baracat, que conhece a SOGESP de dentro, por sua atuação como ex-presidente, e como articulador do grupo técnico que inclui membros da entidade, o papel das sociedades médicas nessa agenda vai muito além do apoio simbólico. É operacional.

“A SOGESP é uma instituição com papel fundamental na capacitação, por meio dos representantes credenciados. Precisamos levar todas essas iniciativas para as regionais, para as suas regiões. Sou de Tupã, conheço bem o interior, suas demandas e a dificuldade que existe no acesso às informações. Por isso, é preciso fazer com que todas as iniciativas cheguem e sejam difundidas em todas as cidades de todas as regiões.”

A SOGESP conta hoje com representantes credenciados em todas as regiões do estado – uma rede que o Dr. Baracat enxerga como multiplicador essencial das ações que estão sendo desenhadas pela Secretaria. Levar as diretrizes do plano estratégico aos médicos que atuam fora da capital ou dos grandes centros é, na prática, o que pode transformar um documento em vidas salvas.

O fórum de maio foi o ponto de partida. E a SOGESP, ao ocupar seu lugar nessa mesa, reafirma o que sua presidente definiu com precisão: o compromisso técnico e ético de contribuir para que São Paulo avance de forma significativa e urgente no enfrentamento de uma tragédia que não deveria mais existir.

Publicado originalmente na edição 163 da Revista SOGESP (mai-ago 2026), seção Saúde Pública.

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