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Manejo dos distúrbios do sono na mulher no climatério

#ExaMina

São Paulo, 12 de janeiro de 2026.

Manejo dos distúrbios do sono na mulher no climatério

Os distúrbios do sono são muito prevalentes em mulheres, especialmente durante a transição menopausal, e repercutem de forma expressiva na qualidade de vida, no desempenho cognitivo, no metabolismo e na saúde cardiovascular. A abordagem dessas queixas requer integração entre fatores hormonais, comportamentais e psiquiátricos, considerando a complexidade biopsicossocial, que caracteriza o climatério.

As queixas de insônia e sono não restaurador acometem até 60% das mulheres na peri e pós-menopausa, sendo frequentemente subdiagnosticadas e tratadas de modo empírico. Além das alterações hormonais, sintomas vasomotores, ansiedade, depressão e comorbidades metabólicas contribuem para a fragmentação do sono. O reconhecimento dos diferentes tipos de distúrbios, como insônia primária, apneia obstrutiva do sono (AOS), síndrome das pernas inquietas e distúrbios do ritmo circadiano, é essencial para o manejo clínico efetivo.

Abordagem diagnóstica

A anamnese detalhada é o principal instrumento diagnóstico. É fundamental distinguir a insônia primária de distúrbios secundários, relacionados a fatores hormonais, psiquiátricos ou medicamentosos, além de considerar o contexto psicossocial da paciente. Fatores como sobrecarga de trabalho, responsabilidades familiares e transições emocionais típicas dessa fase podem impactar significativamente o padrão de sono.

A história deve explorar o horário habitual de dormir e acordar, latência e tempo total de sono, despertares noturnos e o tempo que a paciente permanece no leito sem dormir. Deve-se investigar o consumo de cafeína, álcool e medicamentos, bem como o tempo efetivamente reservado para o sono. Sintomas associados, como fogachos, noctúria, roncos, cefaleia matinal e fadiga diurna, auxiliam no diagnóstico diferencial.

Principais diagnósticos

  • Insônia primária: caracteriza-se por dificuldade em iniciar ou manter o sono, presente em pelo menos três noites por semana por mais de três meses, com repercussão funcional no dia seguinte. Os fogachos e suores noturnos, típicos do hipoestrogenismo, podem levar a despertares súbitos.
  • Apneia obstrutiva do sono: deve ser lembrada se houver roncos, pausas respiratórias ou sonolência diurna, especialmente em mulheres com ganho ponderal ou aumento de circunferência abdominal.
  • COMISA (coexistência de insônia e apneia): exige abordagem integrada, pois o tratamento isolado de uma condição tende a ser ineficaz.
    Síndrome das pernas inquietas: desconforto nas pernas à noite, aliviado com movimento.
  • Transtornos ansiosos e depressivos: também se associam respectivamente à insônia de início e a padrões de sono fragmentado.

 

Estratégias terapêuticas

O manejo da insônia no climatério deve ser multimodal, abordando aspectos hormonais, comportamentais e clínicos.

  • Intervenções comportamentais: a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é o tratamento de primeira linha para insônia. Intervenções comportamentais breves, aplicadas ainda na insônia de curta duração, podem prevenir a cronificação do quadro e reduzir a necessidade de farmacoterapia. Medidas de higiene do sono incluem evitar cafeína e álcool após o fim da tarde, manter horários regulares, reduzir o uso de telas à noite e garantir ambiente escuro e silencioso. Práticas de relaxamento e mindfulness reduzem a hiperexcitação cortical e a ansiedade pré-sono.
  • Terapia hormonal (TH): em mulheres perimenopáusicas e pós-menopáusicas com sintomas vasomotores e insônia, a TH combinada com estrogênio e progestagênio melhora a qualidade do sono e reduz despertares. O estrogênio transdérmico é preferido em casos com risco cardiovascular ou metabólico elevado, respeitando contraindicações, como história de câncer de mama, trombose ou doença hepática.

Considerações práticas e perspectivas futuras

O ginecologista é frequentemente o primeiro profissional a receber queixas de insônia e fadiga em mulheres climatéricas. Reconhecer o papel dos hormônios sexuais na regulação do sono e compreender as interfaces com distúrbios psiquiátricos e metabólicos é essencial para o manejo integral.

Sintomas como fogachos, ansiedade, noctúria e dor musculoesquelética frequentemente coexistem, reforçando a importância de uma abordagem interdisciplinar. A terapia hormonal, quando bem indicada, oferece benefícios significativos para o sono e o bem-estar global da mulher.

Avanços recentes na neurobiologia do sono abriram espaço para novas terapias, que atuam diretamente na regulação do ciclo sono–vigília. No contexto da mulher climatérica, há crescente valorização de abordagens integrativas, atividade física, ioga, técnicas de respiração e mindfulness, que demonstram melhora da qualidade de vida e do sono.

O cuidado contemporâneo deve ser centrado na paciente, combinando intervenções comportamentais, farmacológicas e hormonais de acordo com o perfil individual e o momento da transição menopausal.


Fonte: Artigo “Estratégias práticas para o manejo dos distúrbios do sono na mulher no climatério”, de autoria da Dra. Helena Hachul, livre-docente e chefe do Setor Sono na Mulher – UNIFESP, pesquisadora do Instituto do Sono e professora da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE)

Esta matéria, o médico associado, encontra na Revista SOGESP N°160

 

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