Hipoatividade do desejo sexual em mulheres: como o ginecologista pode abordar a queixa mais comum do consultório
São Paulo, 02 de setembro de 2026
Hipoatividade do desejo sexual em mulheres: como o ginecologista pode abordar a queixa mais comum do consultório
Frequente e ainda pouco investigada na rotina ginecológica, a queda do desejo sexual tem raízes biológicas, relacionais e emocionais. Especialista da FMRP-USP propõe uma abordagem breve e estruturada para identificar e conduzir o problema
A disfunção do desejo sexual hipoativo (DDSH) é a deficiência ou ausência persistente de pensamentos ou fantasias sexuais e/ou de desejo ou receptividade para a atividade sexual, de forma duradoura e causando sofrimento pessoal. Manifesta-se pela redução ou perda do desejo espontâneo e/ou responsivo, bem como pela incapacidade de manter o interesse pela atividade sexual uma vez iniciada. É a queixa mais comum no consultório ginecológico e aumenta com a idade.
Os números variam bastante conforme o país e os critérios adotados nos estudos. Entre mulheres casadas, de 40 a 65 anos, a DDSH foi observada em mais de dois terços das australianas e em cerca de metade das iranianas. Na Europa, a prevalência sobe de 11% entre jovens de 20 a 29 anos para 53% entre mulheres de 60 a 70 anos; nos Estados Unidos, na mesma faixa etária, a progressão é de 22% para 37%. No Brasil, um estudo populacional identificou DDSH em 9,5% das mulheres em geral.
Os dados são apresentados pela Dra. Lucia Alves da Silva Lara, coordenadora do Serviço de Saúde Sexual do Setor de Reprodução Humana do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, em artigo publicado na Revista SOGESP. Segundo a autora, diante da alta prevalência de queixas sexuais, a investigação da função sexual feminina precisa fazer parte da história clínica na rotina ginecológica. Porém, o ginecologista e obstetra ainda enfrenta dificuldades para abordar o tema: em um estudo recente com mulheres em idade reprodutiva, quase 70% delas não haviam sido perguntadas sobre sua vida sexual. Entre as principais razões estão o tempo limitado das consultas, o conhecimento insuficiente nesta área e a falta de protocolos que orientem a tomada de decisão clínica diante da queixa.
A vivência da sexualidade é considerada um dos pilares da qualidade de vida, e alterações persistentes em qualquer fase da resposta sexual, especialmente a DDSH, figuram entre as causas mais comuns de insatisfação conjugal e divórcio. Por isso, a especialista defende que uma abordagem breve e sistematizada da função sexual durante a consulta de rotina cria um espaço para o relato das queixas, permitindo identificá-las e manejá-las precocemente.
A base biológica do desejo
O desejo sexual feminino está relacionado à ação dos hormônios sexuais, especialmente a testosterona e o estradiol, que atuam nos centros sexuais do sistema límbico e no córtex pré-frontal, favorecendo a síntese e a ação de neurotransmissores envolvidos na resposta sexual prazerosa. O óxido nítrico promove a vasodilatação que culmina no ingurgitamento do clitóris e na resposta de excitação; o aumento do fluxo sanguíneo para a genitália leva à lubrificação da parede vaginal, tornando a relação mais prazerosa. A dopamina é essencial para ativar o mecanismo de motivação e recompensa, e a noradrenalina se eleva durante a relação, especialmente na excitação e no orgasmo. Ocitocina e outros peptídeos também têm papel importante, por mecanismos ainda pouco esclarecidos.
Perifericamente, o estrogênio promove o trofismo da genitália, favorecendo a sensibilidade prazerosa e a lubrificação. Dessa forma, a menopausa, condições patológicas ou o uso de medicamentos que interferem na síntese e na ação dos hormônios sexuais e dos neurotransmissores podem culminar na DDSH. Entre os neurotransmissores que inibem os sistemas sexuais excitatórios, destacam-se a serotonina, os opioides e os endocanabinoides.
O que interfere no desejo em cada fase da vida
Devido à influência hormonal na função sexual feminina, a autora considera separadamente os fatores associados à DDSH em mulheres na fase reprodutiva, no climatério e na pós-menopausa.
Em mulheres jovens, em idade reprodutiva, um estudo com mais de 1.200 participantes apontou como principais fatores de risco para disfunção sexual a percepção da vida sexual conjugal como ruim ou muito ruim, casamento mal ajustado, presença de problemas conjugais, comprometimento da saúde mental da mulher, desconhecimento de temas relacionados à sexualidade, doença crônica no cônjuge e relacionamento de longa duração.
Entre mulheres no climatério sexualmente ativas, a prevalência de disfunção sexual chegou a 38%, relacionada sobretudo à baixa satisfação com o sono, à idade e ao nível educacional. Na pós-menopausa, associam-se à disfunção sexual a incontinência urinária, os relacionamentos longos, as disfunções sexuais do parceiro, sintomas do climatério como ondas de calor e irritabilidade, dor na relação sexual e autoimagem negativa.
Em qualquer faixa etária, doenças como diabetes, alterações da tireoide, elevação da prolactina, hipertensão arterial, depressão e ansiedade precisam ser investigadas, porque estão associadas às disfunções sexuais. Da mesma forma, alguns medicamentos, entre eles certos antidepressivos, anti-hipertensivos e anticoncepcionais hormonais, devem ser considerados, avaliando se há coincidência entre o início do uso e o surgimento da queixa.
Como investigar a queixa na consulta
Existem vários modelos de investigação da queixa sexual em mulheres. Considerando o possível desconforto da paciente para relatar o problema, a autora sugere que essa investigação seja incorporada à anamnese ginecológica de rotina. Inicialmente, deve-se perguntar se a mulher mantém relações sexuais e, em seguida, se está satisfeita com sua vida sexual. Se a resposta for negativa, investiga-se qual fase da resposta sexual está alterada: desejo, excitação ou orgasmo, e verifica-se a presença de dor na relação. Além disso, é fundamental explorar a orientação sexual, verificando se o interesse da mulher é direcionado a homens, mulheres ou ambos, uma vez que a ausência de interesse pode estar relacionada à falta de atração pela parceria atual.
Ao identificar a fase comprometida, é necessário caracterizar a queixa quanto ao tempo de surgimento, se a paciente identifica um possível fator relacionado e se a relação com a parceria é satisfatória. Na sequência, é essencial avaliar se a resposta sexual individual está preservada: se a paciente tem pensamentos sexuais espontâneos, se tem fantasias e se cenas eróticas a estimulam. A presença desses elementos sugere que a resposta sexual biológica está preservada, com comprometimento predominante do desejo responsivo. Nesse caso, explica a médica, o fator mais provável é de natureza relacional, indicando a necessidade de encaminhamento a um especialista em sexologia para avaliação aprofundada.
Educar é a principal estratégia
O tratamento é direcionado ao fator que levou à DDSH. As medidas educativas constituem a principal estratégia de cuidado das disfunções sexuais, independentemente da causa. A autora organiza essas orientações em três eixos, resumidos na sigla EOP.
Ensinar sobre a resposta sexual: a anatomia dos órgãos genitais, o mapeamento das áreas erógenas genitais e corporais e a fisiologia da resposta sexual feminina, com foco nas definições de desejo, excitação e orgasmo.
Orientar sobre a saúde sexual: como a sexualidade se constrói e quais fatores interferem e limitam sua expressão, se repressão familiar, social e religiosa, vergonha, autoimagem negativa, autoestima rebaixada, violência sexual, conceitos distorcidos sobre sexo, mitos e crenças, além de informar que a função sexual prazerosa faz parte da qualidade de vida e de discutir medidas para quebrar a rotina em relacionamentos de longa duração.
Permitir e estimular o prazer sexual, com medidas para reduzir a culpa no exercício da sexualidade, informação sobre os benefícios físicos, psíquicos e emocionais do prazer e a discussão do direito ao prazer sexual e à vivência sexual plena como forma de potencializar a saúde e as relações interpessoais.
As doenças de base devem ser tratadas e, no caso de medicamentos que interfiram na função sexual, o ginecologista deve verificar com o clínico responsável as alternativas menos prejudiciais. A autora observa, ainda, que existem opções medicamentosas para o tratamento da DDSH, com indicações que variam conforme a fase da vida da mulher e as condições associadas, que devem ser avaliadas e prescritas individualmente pelo médico.
Fonte: Artigo “Hipoatividade do Desejo Sexual em Mulheres: abordagem clínica estruturada para o ginecologista”, de autoria de Lucia Alves da Silva Lara, coordenadora do Serviço de Saúde Sexual do Setor de Reprodução Humana do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP). Publicado na edição 163, da Revista SOGESP (mai-ago 2026).
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