Implantes hormonais manipulados - SOGESP se posiciona pela proibição e pela proteção das pacientes
São Paulo, 09 de outubro de 2026
Implantes hormonais manipulados - SOGESP se posiciona pela proibição e pela proteção das pacientes
A Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (SOGESP) vem a público manifestar sua preocupação com a oferta e o uso, no Brasil, dos chamados implantes hormonais manipulados, popularmente conhecidos como “chips da beleza”, e declarar seu apoio ao posicionamento apresentado na Carta do Rio de Janeiro, divulgada em 1º de outubro durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa. Assinado por doze entidades médicas e científicas nacionais e internacionais, entre elas a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o documento pede à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a proibição total desses produtos.
Os implantes manipulados são pequenos cilindros ou pastilhas colocados sob a pele, preparados em farmácias de manipulação com hormônios como testosterona, estradiol e gestrinona, isolados ou combinados. Vêm sendo oferecidos como solução para sintomas da menopausa, queda da libido, emagrecimento, ganho de massa muscular, aumento da disposição e até antienvelhecimento. Para essas finalidades, não há estudos clínicos de qualidade que comprovem os benefícios anunciados e estabeleçam a segurança dessas formulações.
Diferentemente dos medicamentos registrados, esses produtos não passaram por avaliações que comprovem a uniformidade da composição, pureza, esterilidade, estabilidade e liberação de hormônios na quantidade e no tempo previstos. Também não se sabe, ao certo, quanto da dose implantada efetivamente é absorvida pelo organismo.
A forma de aplicação agrava o problema. Depois de inserido, o implante pode continuar liberando hormônios por meses. Se a paciente tiver uma reação adversa ou ficar exposta a níveis hormonais excessivos, não é possível ajustar a dose ou suspender o tratamento, como ocorre com comprimidos, géis ou adesivos. A retirada pode ser difícil ou incompleta, especialmente nos implantes que se dissolvem no organismo.
Há, ainda, dúvidas importantes sem resposta, entre elas os efeitos a longo prazo sobre o coração e o fígado, o risco de trombose e de acidente vascular cerebral (AVC), e as consequências para as mamas e para o endométrio. A gestrinona, esteroide sintético usado em alguns implantes, não tem indicação cientificamente estabelecida para a menopausa ou para a terapia de reposição hormonal e pode causar acne, crescimento excessivo de pelos, queda de cabelo, alterações da voz e aumento do clitóris. Algumas dessas alterações podem persistir mesmo após a interrupção do uso.
Os ginecologistas e outros especialistas veem as consequências no dia a dia. O atendimento de mulheres com efeitos adversos do mau uso de hormônios, em especial de implantes manipulados, tornou-se rotina nos consultórios.
A preocupação não é apenas clínica. As entidades denunciam a expansão de um modelo comercial que se afasta da manipulação magistral, que deve atender a uma necessidade individual da paciente não contemplada por medicamento registrado disponível. Em vez disso, observamos produção em escala, a formação de estoques, a padronização comercial de protocolos, o recrutamento, o treinamento de médicos prescritores e a divulgação direta ou indireta ao público nas redes sociais.
A discussão tampouco é nova. Em outubro de 2024, a Anvisa determinou a suspensão da manipulação, da comercialização, da propaganda e do uso de todos os implantes hormonais manipulados. No mês seguinte, após recursos administrativos de médicos, clínicas e farmácias, a agência recuou e substituiu a proibição total por regras mais restritivas. Desde então, seguem proibidos os implantes à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos para fins estéticos, de ganho de massa muscular e de melhora do desempenho esportivo. A manipulação, porém, continua permitida em condições específicas para outras finalidades terapêuticas, e é essa exceção que, segundo as entidades, vem sendo usada para manter o mercado em funcionamento. Como afirma a Carta do Rio de Janeiro, prescrição individualizada não significa experimentação sem evidência e segurança.
O que a SOGESP defende
A SOGESP acompanha as entidades signatárias ao solicitar que a Anvisa, com a participação do Ministério da Saúde, dos Conselhos Federal e Regionais de Medicina e de Farmácia, do Ministério Público, das Defensorias Públicas, dos órgãos de defesa do consumidor e do Poder Legislativo, adote as medidas necessárias para proibir a manipulação, a formação de estoques, a comercialização, a distribuição, a publicidade e o uso dos implantes hormonais manipulados no país, independentemente da finalidade. Defende, também, o fortalecimento da fiscalização e da farmacovigilância, da notificação obrigatória de eventos adversos, bem como a responsabilização de todos os envolvidos na cadeia comercial.
É importante esclarecer que a SOGESP e as demais entidades não se opõem à terapia hormonal. Quando corretamente indicada e acompanhada, é um tratamento legítimo, eficaz e respaldado por evidência científica, que melhora a saúde e a qualidade de vida de muitas mulheres. Existem medicamentos registrados e estudados, em comprimidos, géis, adesivos e formulações vaginais, que permitem ajustar a dose e interromper o tratamento quando necessário, e que atendem com segurança às indicações hormonais na menopausa e fora dela, inclusive na endometriose e em outras condições. O pedido também não alcança os implantes contraceptivos registrados na Anvisa, como o de etonogestrel, usado para prevenir a gravidez.
No caso da testosterona, a única indicação em mulheres respaldada por consensos internacionais é o transtorno do desejo sexual hipoativo na pós-menopausa, após avaliação clínica cuidadosa e com doses que mantenham os níveis hormonais dentro da faixa fisiológica feminina. Não há evidência científica que justifique seu uso para emagrecer, ganhar músculos, aumentar a energia, melhorar a cognição, prevenir doenças do coração ou promover longevidade.
Um recado às pacientes e aos colegas
Às mulheres, a SOGESP recomenda que conversem abertamente com seus médicos sobre qualquer tratamento hormonal, perguntem o que será utilizado, se o produto é registrado na Anvisa e qual é a evidência que sustenta a indicação. Desconfiem de promessas de resultados rápidos ou milagrosos. Aos colegas médicos, reforçamos a responsabilidade de basear suas condutas em evidências e de oferecer a cada paciente o tratamento adequado, na menor dose eficaz, pela via correta e com possibilidade de acompanhamento e interrupção.
A medicina personalizada começa na singularidade de cada paciente, mas precisa permanecer dentro dos limites da ciência, da ética e da proteção sanitária.
SOGESP – Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo
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