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Artigos Científicos | Campinas

CÂNCER DO COLO DO ÚTERO E NIC3 DE 2001 A 2010 EM SERVIÇO DE REFERÊNCIA PARA A REGIÃO DE CAMPINAS: EVOLUÇÃO DA TAXA ANUAL, IDADE, TIPO HISTOLÓGICO E ESTADIAMENTO

Mariana Sollia Soares, Cirbia S. Campos Teixeira, Helymar da Costa Machado, Liliana A. L. A. Andrade, Luiz Carlos Zeferino, Julio Cesar Teixeira

Depto de Tocoginecologia/FCM, Hospital da Mulher/CAISM, UNICAMP

Introdução: o rastreamento citológico do câncer cérvico-uterino no Brasil é considerado oportunístico. Apesar de não haver registros populacionais de quem está ou não em dia com o rastreamento, algumas regiões mais desenvolvidas conseguem oferecer mais facilidades para que o rastreamento possa ser realizado, embora necessite da procura espontânea das mulheres. A Região de Campinas (SP) tem esta característica o que poderia ser confirmada por avaliações evolutivas de taxas de diagnósticos realizados e as tendências evolutivas das características das pacientes e da doença diagnosticada. Objetivos: descrever a taxa anual, idade, tipo histológico e estadiamento clínico (EC) no diagnóstico de câncer do colo do útero e NIC3 no período 2001-2010.

Métodos: estudo descritivo, baseado em dados do Registro Hospitalar de Câncer do Hospital da Mulher – CAISM, Unicamp, referência da região para condução deste tipo de patologia pelo SUS. Os registros no período totalizaram 1459 NIC3 e 1804 casos de câncer do colo. Foram analisados: ano do diagnóstico, faixas etárias, tipo histológico, se carcinoma espinocelular (CEC) ou adenocarcinoma/ca. adenoescamoso (AC), e EC da doença. Foi calculada a frequência anual e analisadas as tendências para diagnóstico por faixas etárias, EC e tipo histológico, e as associações, através do Teste de Tendência de Cochran-Armitage, com p<0,05 para significância.

Resultados: foi observado um aumento progressivo de 54% na proporção de casos de NIC3 e uma diminuição de 36% nos casos de câncer invasor (123 NIC3/ 211 Câncer em 2001 para 189 NIC3/ 135 Câncer em 2010, p<0,001) (Figura 1). Idade: 76,5% dos NIC3 ocorreram em <45 anos e apenas 1,4% (25/1804) dos casos de Câncer em <25 anos. Considerando os CEC invasores, houve progressivamente mais diagnósticos em mulheres <45 anos (16,8% em 2001 para 38,0% em 2010) e progressivamente menos em >45 anos (83,2% em 2001 para 62,0% em 2010, p=0,008). Com relação ao EC houve um aumento progressivo na proporção de diagnóstico de Câncer em EC I ‘restrito ao colo’ (26,7% em 2001 para 40,2% em 2010, p=0,01). Para o diagnóstico no EC III (localmente avançado) não houve modificação significativa (49,1% em 2001 para 43,2% em 2010, p=0,42), que continua sendo o mais frequente. O tipo histológico CEC ocorreu em 78,8% dos casos contra 21,2% dos AC (Figura 2). O diagnóstico de CEC EC IB (possível cirurgia) aumentou gradualmente (9,5% em 2001 para 21,3% em 2010, p=0,010) e o AC foi mais diagnosticado em mulheres >45a (15,8% em 2001 para 26,6% em 2010, p=0,007) e em EC III (47,5% em 2001 para 53,1% em 2010, p=0,033) (Figura 3). Conclusões: o perfil evolutivo do NIC3 é de aumento progressivo ( 54%) e do número de Câncer é de diminuição (-36%) no período 2001-2010 nos casos atendidos pelo Hospital de referência do SUS para a região de Campinas (SP). Houve aumento na proporção de AC diagnosticados em estádios mais avançados e em mulheres >45 anos, ao passo que o CEC está diminuindo, mas com aumento na proporção de EC IB e de diagnósticos em mulheres <45 anos. Apenas 1,4% dos casos de Câncer ocorreram em mulheres <25 anos.

Discussão: quando é implantado um programa organizado para rastreamento do câncer cérvico-uterino em nível populacional, espera-se uma diminuição da mortalidade em cerca de 80% com o passar do tempo. As modificações ocorrem progressivamente particularmente nas taxas de detecção e no perfil dos casos diagnosticados. Inicialmente, espera-se que ocorra uma maior detecção de casos com progressiva diminuição na idade ao diagnóstico e com doença diagnosticada em estádios clínicos menos avançados. Em paralelo há um aumento progressivo na detecção de lesões precursoras de alto grau, principalmente o NIC3. Por último, deve-se observar uma limitação na diminuição dos casos com tipo histológico adenocarcinoma, pois para este tipo o rastreamento citológico apresenta maiores dificuldades no diagnóstico precoce, resultando em aumentando na proporção dos casos de câncer de origem no epitélio glandular no total de câncer diagnosticado. Neste trabalho apresentado, referente aos casos diagnosticados no período de 2001-2010 em serviço de referência com assistência do SUS para a Região de Campinas podemos observar um padrão no comportamento evolutivo indicando modificações como as descritas acima e esperadas quando há um programa de rastreamento com ‘indícios de organização’. Há um balanço inverso entre taxas anuais de câncer progressivamente menores e de taxas de NIC3 progressivamente maiores. Há ainda, uma maior queda nos casos de Carcinoma do tipo escamocelular (CEC) em relação ao Adenocarcinoma de colo, sendo que os tumores escamosos estão sendo diagnosticados em idades relativamente mais baixas e em estádios mais iniciais, possibilitando melhores resultados terapêuticos. Por outro lado, ainda não se observa efeito do rastreamento sobre os casos de adenocarcinomas diagnosticados, permanecendo uma tendência de diagnósticos em mulheres acima de 45 anos e em estádios mais avançados. Outra informação a ser destacada é a taxa de 1,4% de diagnostico de Câncer em mulheres com idade abaixo da preconizada para rastreamento no Brasil, ou seja, abaixo de 25 anos de idade. Isto está de acordo com informações disponíveis na literatura, demonstrando certa segurança para o início do rastreamento aos 25 anos. Independentemente de idade, o que verificamos é que o ainda há potencial de melhorar os resultados do rastreamento desta doença. Serão necessários investimentos contínuos nestes programas, mas sem registro populacional com informações sobre quem está ou não realizando seu exame periódico e, logicamente, com instrumentos para convocação das faltosas e evitar a repetição de exames desnecessários, se conseguirá demonstrar avanços com impacto significativo em nossas estatísticas. A Região de Campinas tem um desenvolvimento econômico de destaque no cenário nacional e consegue, mesmo com um rastreamento oportunístico, apresentar resultados significativos como os apresentados. Mas, sem a organização necessária, dificilmente haverá melhoria nos números para o futuro, principalmente para a população não vacinada contra HPV. Legenda:



Figura 1: evolução da taxa anual de diagnósticos de NIC3 e Câncer de colo uterino atendidos no período de 2001-2010 no Hospital da Mulher, CAISM/Unicamp.






Figura 2: evolução da taxa anual de diagnósticos de Câncer de colo uterino por tipo histológico atendidos no período de 2001-2010 no Hospital da Mulher, CAISM/Unicamp.






Figura 3: correlação entre idade, tipo histológico e estadiamento para os casos de Câncer de colo uterino atendidos no período de 2001-2010 no Hospital da Mulher, CAISM/Unicamp.