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SOGESP - Opinião: O uso de Anticoncepcionais Hormonais e o Risco de Câncer de Mama
  

Mais uma vez, a associação entre o uso de anticoncepcionais hormonais e o câncer de mama é trazida à baila, colocando no centro das discussões e preocupações, os ginecologistas, os mastologistas, médicos em geral e milhões de mulheres usuárias ou não de anticoncepção hormonal, em todo o mundo civilizado.
 
No dia 02 de dezembro de 2017, foi publicado um estudo de Morck e colaboradores, no New England Journal of Medicine (NEJM), que avaliou 1,8 milhão de mulheres da Dinamarca, usuárias de anticoncepcionais hormonais. Foram excluídas desse estudo, as mulheres com antecedentes de câncer de mama, tromboembolismo ou que foram submetidas a tratamento de infertilidade. As mulheres foram acompanhadas por um tempo médio de cerca de 11 anos e foram diagnosticados 11.517 casos de câncer de mama entre 1,8 milhão de mulheres.
 
No estudo, houve um aumento de risco de cerca de 20% nas usuárias de anticoncepcionais hormonais, quando se comparou com as mulheres que não os usaram.  Quando as mulheres usaram os anticoncepcionais hormonais por mais de 10 anos, o risco aumentou para 38%.   Esses resultados mostrados em porcentagem de risco podem assustar um pouco, pois pode-se pensar (principalmente entre leigos e em noticias mal interpretadas por desavisados) que uma mulher teria 38% de probabilidade de ter câncer de mama se tomasse pílula por mais de 10 anos, o que não é verdade!
 
Quando se traduz com mais detalhamento, esse aumento fica mais claro. O QUE SE ANALISOU NÃO FOI A PORCENTAGEM DE MULHERES QUE DESENVOLVERAM CÂNCER DE MAMA, mas sim, O AUMENTO DO RISCO RELATIVO DE DESENVOLVER CÂNCER DE MAMA, comparado com a não usuária de anticoncepcionais hormonais. Então, se a chance (RISCO) de ter câncer de mama até os 50 anos é de 2% em geral, para quem usou anticoncepção hormonal por 1 ano, o risco foi de 2,2% e para aquelas que usaram por mais de 10 anos, o risco foi de 2,38%. Traduzindo, para melhor entendimento, houve 1 caso a mais de câncer do que o esperado, para cada 7690 usuárias de anticoncepcionais hormonais.
 
É bom lembrar como se posicionou sobre o assunto, a Sociedade Brasileira de Mastologia, na palavra de seu Presidente Antonio Luiz Frasson: “É importante enfatizar que esse aumento de risco é relativo, baseado no risco individual sem uso e de acordo com a idade, sendo esse incremento, em termos absolutos, bastante pequeno”. No presente estudo, o aumento de risco absoluto foi de 13 casos por 100.000 mulheres, sendo de apenas 2 casos em 100.00 mulheres com menos de 35 anos.
 
O estudo publicado no NEJM não avaliou nesta publicação, a mortalidade geral de câncer, sabidamente diminuída entre as usuárias de anticoncepção hormonal, como o câncer de ovário, o câncer de endométrio e o câncer colo-retal, benefícios inequívocos do seu uso. Além disso, há que se pensar que não foram considerados nesse estudo, fatores confundidores para risco de câncer de mama, como obesidade, determinação genética e depressão, entre outros.
 
Finalizando e respeitando o estudo, a importância de uma publicação do NEJM e a competência e seriedade de seus autores, entendemos que sendo o câncer de mama multifatorial, devamos aguardar com prudência novas publicações sobre a associação entre anticoncepcionais hormonais e câncer de mama.
 
Os benefícios do uso de anticoncepcionais são sabidamente reconhecidos, entre eles, a diminuição das gestações não planejadas e suas consequências. Portanto, consideramos que o ginecologista deva individualizar cada caso, realizar orientação antecipatória de efeitos adversos, conversar sobre riscos e benefícios e continuar a seguir as orientações dos Critérios de Elegibilidade da OMS. Recomendamos prudência e bom senso na interpretação de tão importante estudo e dentro de nossa visão crítica, julgamos que não existe até o presente momento, motivos para a suspensão do uso de anticoncepcionais hormonais, considerando obviamente a individualização dos casos, como compete à boa prática ginecológica.
 
A SOGESP sempre preocupada com as mulheres brasileiras e em subsidiar os seus associados para que tenham as melhores práticas assistenciais, fez extensa revisão sobre o tema e publicou em suas RECOMENDAÇÕES no ano de 2015.
 
 
Dr. Jarbas Magalhães
Io Vice Presidente da SOGESP
 
Geraldo Rodrigues de Lima
Diretor Científico da SOGESP